Toda mulher deveria ser assediada para ser feliz
Toda mulher deveria ser assediada para ser feliz

Toda mulher deveria ser assediada para ser feliz

Leia de novo. Está escrito isso mesmo: “Toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”. A frase é da escritora e jornalista Danuza Leão; foi escrita em 2018; e até hoje me causa arrepios. Mas voltar ao que disse Danuza é importante. Necessário. Por quê?

Porque quando a gente vê ou vive de perto é outra história. Clichê, eu sei. (Aliás, tem coisa mais clichê que a vida?) Eu ouvi mulheres próximas a mim desacreditando outras mulheres que denunciaram o assédio. É tão comum isso! Em mim elas acreditam, porque me conhecem e viram o estrago e o trauma. Mas não há confiança na outra mulher, aquele do outro lado da rua. Como chegamos a essa descrença?

Ainda é exceção a mulher que dá golpe, que mente, que usa o assédio como chantagem… Tem? Tem. Mas as mulheres vítimas são a regra. Não podemos generalizar a exceção – mesmo que haja tanta força nos levando para isso – e, por isso, condenar a vítima a uma segunda violência: a do julgamento prévio.

Voltemos à Danuza, que disse ainda: “O que não está claro para mim é o conceito de assédio. É uma paquera? Avanços sexuais entre homens e mulheres começam sempre de um lado. Às vezes, o outro lado não quer, e isso é normal. Como definir?”.

Para mim, Danuza descreve o padrão do pensamento até hoje. “Ela tava querendo; ela deu mole. Tava pedindo!”.  Esse padrão precisa ser desconstruído. Por isso é preciso dizer o básico: assédio é crime. Assédio não é cantada; não é flerte; não é paquera; não ultrapassa limite. A assédio é crime; não é não; sim é sim; não sei é não sei (não é talvez, não é charme). 

Por isso, repito, é tão importante lembrar Danuza. Imaginem (ou lembrem!) que ela foi a primeira modelo brasileira a desfilar no exterior. Abriu portas, rompeu barreiras, derrubou muros de preconceito. E ainda assim, ela carregava dentro dela um pedaço de machismo. Sim, ele sempre está lá… às vezes adormecido, mas está lá.   

Assédio adoece, traumatiza, destrói. Flerte, paquera, namoro, cantada… (re)constrói, cura, energiza. Como diz uma amiga da Mari, “é tão simples, que irrita!”. Mas a irritação não vence e gente segue repetindo (nem que seja para vencer no cansaço): assédio é crime. Assédio não é cantada; não é flerte; não é paquera; não ultrapassa limite. A assédio é crime; não é não; sim é sim; não sei é não sei (não é talvez, não é charme)…

Texto original publicado na Revista Bá

Foto Dulce Helfer

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