Lugar de mulher à frente: como escudo ou como arma
Lugar de mulher à frente: como escudo ou como arma

Lugar de mulher à frente: como escudo ou como arma

Simone de Beauvoir escreveu uma frase com a qual, aposto, você já se deparou algumas vezes. É a clássica: você não nasce mulher; torna-se mulher. Me peguei com essa frase na cabeça há poucos dias, quando lia sobre a guerra que que assisto, aterrorizada, no Oriente Médio. Eu tento, há anos, entender esse conceito, mas a realidade me atropela sempre. O que é me tornar mulher? Será que consegui? Será que fracassei?

O que sei é que, ao longo de milênios de história, as mulheres têm sido recorrentemente usadas por homens em guerras a fim de humilhar… os outros homens, ou seja, infligir a eles uma vergonha. As mulheres também servem de escudo, afinal, não é à toa que elas e as crianças, quando em situações de confronto, são colocadas à frente quando o perigo aumenta. A gente entende: afinal, quem ousa bater ou violentar mulheres e crianças?

Mas, na cabeça dos homens que guerreiam, a lógica não existe. Ou como explicamos que os homens que usam as mulheres de escudo são os mesmos que as violentam para humilhar os seus inimigos?

Olhando para o Hamas, mais especificamente, eu vejo e revejo as cenas de meninas sendo sequestradas, levadas à força, sendo mortas e estupradas com a mesma naturalidade que nós, eu e você, vamos à padaria comprar pão. E lembro de Beauvoir. Não sei se elas se tornaram mulheres. Mas sei que elas foram transformadas em escudo, em arma, em moeda de troca. Entra século, sai século… e tudo permanece assim.

Lembram do Ensaio Sobre a Cegueira (livro do gênio Saramago e filme do Fernando Meirelles)? Quando não havia mais nada a ser trocado no local onde os cegos estavam apartados da sociedade, eles decidiram,então, que usar o corpo das mulheres pagaria pela comida escassa. Ou seja, para que os homens pudessem ter de comer, teriam que ver as mulheres de seu grupo serem violentadas. Essa era a humilhação maior. “Eu tenho tua mulher! Agora podes comer!”

Que doença é essa que atinge tão fortemente os homens de diferentes nações, hábitos, religiões, tempos? Que doença maldita é essa que legitima o uso de mulheres como escudo e como arma de humilhação? Como pode um homem se sentir humilhado por sua mulher ter sido violentada? Machismo mata. E mata há séculos.

Vendo isso tudo, pelo menos uma vez por dia me vem à cabeça: eu não pertenço a esse mundo; não consigo mais viver nesse mundo. Então olho para o lado e vejo que tem novas vidas vindo por aí. E deposito nelas as minhas esperanças. Um fardo pesado, eu sei.

Esperança que a irracionalidade terrorista do Hamas (seus defensores e apoiadores) roubou de milhões de pessoas, especialmente daquelas que eles mantêm ainda em cativeiro. Do muito pouco que sei sobre a vida, sei que a gente não nasce desumano. Torna- se desumano. Seja negando a ciência em tempos de pandemia, seja apoiando, relativizando ou calando diante barbárie de um ataque terrorista.

Por Flávia Moreira, jornalista, publicado originalmente na Revista Ba

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